Antes que me acusem de defender uma escolha que não pratico, deixem-me confessar, primeiro, que resistirei enquanto me for possível e, mesmo depois de me render ao inevitável, continuarei certamente a cair no erro de escrever como sempre escrevi. Uma norma deste tipo não se adopta de um momento para o outro. A geração de transição está destinada a acabar os seus dias sem saber escrever “correctamente”.
Porque o defendo, então? Porque a língua evolui. Com ou sem acordo ortográfico, os nossos netos irão utilizar uma escrita tão distinta da actual como a nossa é distinta da dos nossos avós. E não estou a exagerar, a diferença é notória.
Para quem, tem como hobbie a leitura de papéis gastos pelos séculos, isto não é novidade. Para os restantes, talvez seja surpresa. As nossas consoantes mudas são um vestígio da escrita do passado, repleta de letras desnecessárias, herdadas de uma linguagem falada esquecida há séculos.
Alguns exemplos concretos são melhores que qualquer justificação que possa dar. São registos retirados da minha genealogia. A escolha recaiu sobre os textos mais facilmente legíveis – não foram escolhidos pela “estranheza” das palavras.
Em 1909, há 101 anos, escrevia-se assim:
Aos vinte e seis dias do mez de setembro do anno de mil novecentos e nove, nesta egreja paroquial d’Amor, concelho de Leiria, diocese de Coimbra, baptizei solenemente um individuo do sexo femenino a quem dei o nome de Conceição, que nasceu nesta freguezia á uma hora da noite de vinte e um do corrente mez e anno, filha legitima de Manuel Pontes e de Emilia Silva, trabalhadores, naturaes, moradores, paroquianos e recebidos neste logar e freguezia d’Amor, neta paterna de Jose Pontes e Thomazia de Jesus e materna de Antonio Serra e Joaquina Silva. Foram padrinhos Manuel Rainho Junior, trabalhador e Possidona de Jesus, solteiros, os quaes todos sei serem os proprios. E para constar se lavrou em duplicado este assento que, depois de ser lido e conferido perante os padrinhos, que não sabem escrever, eu só o assigno. Era est supra. O Parocho Joaquim Gonçalves Margalhau
Mas não ficarei por aqui.
Em 1805, há 205 anos, era esta a nossa ortografia:
Aos vinte e nove de Janeiro de mil outo centos e sinco baptizei e puz os Santos Oleos a Jose fº de Jose Ferrª Rico e sua mer Clara dos Ramos da Moita do Boi, netto Paterno de Antonio Ferrª Rico e sua mer Rosa Mª dos Stos do Cazal dos Loureiros junto a esta Vª e materno de Jose Frco Fazendeiro e de sua mer Maria dos Ramos do dº lugar da Mouta do Boy. Padrinhos Jose Leal solteiro, e Frca dos Ramos do dº lugar da Mouta do Boy. testª Mel Frco e Jose Frco Fazendeiro da Mouta do Boy de q fiz este assento dia, mez, e era est supra
Como podem reparar, também há 200 anos se abusava das abreviaturas. Não é característica exclusiva da geração-SMS.
Em 1778, há 232 anos:
Aos sete de Mayo de mil e setecentos setenta e outo baptizou solemnemente e pôs os santos oleos o Rdo P. Coadjutor Joze Ferreira a Jozé nascido de oito dias, filho de Antonio Ferreira Rico, natural desta Villa e de sua Mulher Roza dos Santos, natural do lugar dos Bonitos, freguezia da Almagreira. Neto Paterno de Manoel Ferreira e de sua Mulher Francisca da Conceição, naturaes desta Villa, e pela parte Materna he Netto de Manoel Gonsalves e de sua Mulher Cristina dos Santos do lugar dos Bonitos da mesma freguezia de Almagreira. Forão Padrinhos Joze Teixeira desta Villa, e testemunhas Sebastião José e Joze Joaquim desta Villa, de que fis este assento, que assignei
Nem sempre é fácil distinguir os “s” dos “z”, e desde já peço as minhas desculpas pelos inevitáveis erros de transcrição. O melhor é tentarem ler os originais!
Em 1708, há 302 anos:
Aos vinte de Fevereiro de mil e sette centos e outo annos, contrahirão Matrimonio in facie ecclesia em minha prezença e das testemunhas abaixo nomeadas, André Gaspar filho que ficou de João Lopes dos Ratos, e Magdalena Domingues filha que ficou de João Domingues das Biqueiras, sendo primeiro corridos os banhos sem impedimto e receberão as benções e forão testemunhas Manoel Frz’ Carrisso, Manoel Frco dos Ratos, Antonio Domingues da Foz, e outras mas pessoas, e por verdade fiz este assento, que assinei era est supra. O P. Cura João Frz’ de Almeyda
Finalmente, em 1697, há 313 anos, finais do século XVII:
Aos trinta dias do mes de outubro de mil e seis sentos e noventa e sette annos baptizou e pos os santos oleos o P. Mel Nunes mor na mata da torre a Jozeph fº de Pº Simones e de sua molher Izabel Denis mres no Cazal do Bispo freguezia desta parrochial Igr de NSrª da vitoria deste lugar de Famalicão. forão padrinhos Mel Nunes o mosso e Izabel do Couto fª de Manoel do Couto e de Maria frca moradores no Cazal do Bispo, em certeza de que fis este acento em que me assiney dia era mes est supra. Lourenco de Almeida.
Com ou sem acordo ortográfico, a escrita evolui.
A troca de “s” por “z” foi uma constante ao longo dos séculos. O mesmo para os “u” e “o”, os “ou” e “oi”, os “ão” e “am” e tantos outros. Os “y”, que eram comuns há alguns séculos, desapareceram sem deixar rasto. Uma das surpresas maiores, a meu ver, é a ocorrência, há três séculos, do nome Joseph (e outro que não aparece nestes textos – Joam). Assim se escrevia, mas fica a questão: como seriam lidos?
Interrogo-me se os mais reticentes em aderir ao novo acordo, estariam dispostos a retroceder a escrever nestes formatos. Afinal de contas, estaríamos a recuperar uma tradição e estaríamos muito longe de abrasileirar a nossa língua!
Sejamos claros: faz tanto sentido escrever “correcto” como fazia sentido escrever “anno”, ou “solemnemente”. Para quê complicar? Se as letras estão lá a mais, então, que saiam…