Portugal é isto…

Hoje passei pelas obras de uma grande urbanização e deparei-me com a cena que passo a descrever.
Cerca de oito indivíduos “engravatados”, com ar de engenheiros, a maioria dos quais do sexo feminino, conversavam entre si, uns com plantas nas mãos, outros com pastas debaixo dos braços, alguns de braços cruzados olhando em redor. A três passos destes, um operário, emigrante de leste, devidamente equipado com um colete verde fluorescente e capacete, ía calcando as pedras duma nova calçada. Ao lado, um empreiteiro típico, barrigudo, telemóvel ao cinto, ía-lhe dando as indicações, Calca aqui, agora mais ao lado. Trata-se de uma grande urbanização que está agora a concluir a fase dos arruamentos. Estes eram os únicos “trabalhadores” presentes.
Ninguém acha estranho, pois não? Estamos habituados. Têm-se levantado algumas vozes afirmando que há demasiadas pessoas a entrar para o ensino superior, e que teremos falta de canalizadores, pedreiros, padeiros, empregadas de limpeza, serralheiros… Eu não vejo nada de novo. Pelo menos desde os descobrimentos que somos peritos em entregar os trabalhos que consideramos menos nobres aos outros. Os escravos primeiro, depois os negros – apesar de livres, agora os “ucranianos”. Não precisamos de ter um curso superior para isso. Todos sabem que os portugueses nascem para não fazer nenhum, ou quando muito, nascem para mandar. É como uma espécie de “segredo” conhecido por todos, algo de que não se fala, mas que se aceita sem pensar. Um “bom emprego” é aquele em que não se faz nenhum e se ganha bem, ainda que aborrecido de morrer.
Não quero com isto dizer que não sejamos um povo acolhedor e solidário. Recebemos bem os estrangeiros. Não só lhes damos trabalho, como os fazemos sentir em casa. O povo português sempre foi reconhecido por não ser racista…
Peço desculpa. Há um povo de que não gostamos. Só excluímos os ciganos das nossas boas-relações. Afinal de contas, eles são uma cambada de preguiçosos que não sabem fazer nada. Como poderíamos gostar deles?

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