Maio, 2003


29
Mai 03

Ecos do passado

Como prometido há dois posts atrás, aqui fica um.

Matemática

Merda
Estou na aula de matemática
Não compreendo nada
Como não compreendo
A vida
O que faço aqui
Não sei
Limito-me a estar cá
Assistir a tudo
Mas nada foi feito para mim
Sinto-me um estranho
No meio de
Ninguém
Não há ninguém
Apenas o vazio
Total
E esta aula
Interminável
Que ainda nem começou
Mas que não compreendo
À partida
Como não compreendo
O que faço aqui
Limito-me a observar
Sim, isso faço bem
Observar
Compreendo os outros
Porque observo
(Integrais, o prof. fala de integrais
Como se isso importasse
Sim quem sabe
Isso seja o que realmente
Importa nesta vida
Integrais)
Mas não me compreendo a mim
Quem sou
Porque sou
Para quê
Por quem
Para quem
Estou aqui
Existo
Ou
Um sonho
Sou um sonho
Mas de quem
Só eu
De mim mesmo
Ninguém mais me sonharia
Não há mais
Ninguém
Só eu
Sempre eu

E esta aula
De matemática
(Seja f uma função
Integrável em qualquer
Intervalo fechado)
Não percebo
Nada
Merda!

Carlos Franquinho, 7 de Janeiro de 1999


23
Mai 03

Insónia

Deitei-me com a noção de que ía ser uma noite difícil. Calor e sono são duas coisas que teimam em não querer nada uma com a outra na minha pessoa. Esperei pacientemente que as minhas pálpebras ficassem pesadas, de maneira a deitar-me no momento certo, para adormecer logo que nem uma pedra. É fácil, vão ver.
Dispo-me e nem me passa pela cabeça vestir o pijama. Ponho o telele a carregar, não que ele precise, mas por hábito. Enfio-me na cama debaixo dum solitário e leve lençol. Olho para o livro que ando a ler, mas já tenho os olhos pesados, fica para outro dia. Estico o braço, apago a luz. Escuro. Silêncio. Calor.
Cri cri cri cri. Os sacanas dos grilos já começam o seu ritual de acasalamento, raios os partam. Cri cri cri. Uhuu uhuu. Junta-se-lhes o piar de um mocho, ou coruja, não me perguntem. Uhuu cri cri uhuu cri, diabos os levem. Há meia dúzia de anos não havia aqui mochos, ou corujas, não me perguntem, mas de ano para ano são cada vez mais. Uhuu uhuu. Inicialmente achava os piares fantasmagóricos, depois fui-me habituando, agora são como os grilos, cri cri cri, mais um animal que teima em manter-me acordado, uhuu.
Mas eu já tenho as pálpebras pesadas e dez minutos depois estou quase a dormir. Sonâmbulamente ocorre-me “yes! consegui!”. Até que de repente, ouço atrás de mim, no limiar da minha capacidade auditiva, um *clack*, digo *clack* na falta de melhor onomatopeia, não que *clack* seja o som exacto que eu ouvi.
Foda-se, o que foi isto? Quem é o ladrão, gatuno, larápio, ou pior, fantasma, alma-penada, espírito-maligno que ousa interromper o meu processo de adormecimento tão bem programado? Procuro o interruptor da luz, tacteando por todo o lado, passando com a mão pelo livro que ando a ler, mas não hoje, porque tinha os olhos pesados e pelo telemóvel que está a carregar, mais por hábito que por necessidade. Luz. Tento apanhar o larápio-ladrão-alma-penada-fantasma de surpresa, mas nada, o gajo já se tinha pirado, raios o partam. Espero dois minutos e nada. Apago a luz, viro-me para o outro lado, desisto de utilizar o lençol e tento retomar o tempo perdido. Menos de vinte segundos depois, *clack*. Que merda é esta? Um gajo não pode dormir descansado? A mão voa para o interruptor. Luz. Nada. Desligo o telemóvel do carregador, talvez seja ele a fazer o barulho. Levanto o livro para ver se tem algum bicharoco lá debaixo. Espero pacientemente pelo próximo *clack* dos infernos. Cinco minutos, dez minutos. Do *clack* nem sinal, mas começo a ouvir um mas-que-raio-de-barulho-é-este-que-parecem-tambores-ou-será-trovoada, vindo da rua.
Se calhar devia levantar-me e ir ver se conseguia ver alguma coisa que se visse, mas não me apetece raios, no fundo sei que isto é só paranóia. Tum tum tum brrum tum tum. Cri cri cri. Uhuu. Felizmente do *clack* nem sinal. À uma da manhã começo a stressar, não vou dormir nada esta noite, está visto. Entretanto o mas-que-raio-de-barulho-é-este-que-parecem-tambores-ou-será-trovoada pára e decido arriscar e apagar a luz. Temo ouvir um novo *clack*, mas o cansaço ganha e adormeço antes do fantasma-gatuno se voltar a manifestar.
Ai… Que saudades das suaves noite de Inverno, com a hipnotizante música da chuva a cair, com as suas trovoadas de embalar e com vinte quilos de cobertores em cima. Que saudades de dormir que nem uma pedra…


21
Mai 03

Online

Vieram cá hoje os tipos reparar os cabos do telefone. Ainda estiveram por aí umas duas horas pra trás e pra frente até arranjarem tudo. Parece ter ficado tudo bem. :)
Acho que vou colocar por aqui alguns “poemas” que escrevi há tempos. Sempre dá para encher. Como os vou colocar nas datas respectivas, caso os pretendam ler, terão que os procurar por aí… :) Esqueçam. Era má ideia.


19
Mai 03

Logs logs logs…

Agora que os weblogs começam a ser moda e a andar nas bocas do mundo, tomei algumas decisões. Já ando a pensar no assunto à dias. Parece-me que o espírito original dos weblogs está em causa. A busca de protagonismo nunca foi uma demanda dos webloggers (pelo menos da maioria dos originais). Penso que não teremos nada a ganhar com toda esta divulgação. Claro que falo apenas a nível pessoal, e é a nível pessoal que vou agir…
Apesar de sentir um grande interesse pela criação duma comunidade de webloggers nacionais (PTWeblogs), não tenciono participar mais no fórum :( Não se trata de algo contra a comunidade ou contra algum dos seus participantes, prefiro simplesmente ficar só no meu cantinho.
Depois há aquela “desconfiança” em relação aos jornalistas, com a qual não concordo inteiramente. Temo que depois dos jornalistas, a “comunidade” se vire contra o seu interior e questões do tipo “o meu weblog é melhor que o teu”, acabem por destrui-la. Espero estar enganado, mas quem conhecer uma comunidade virtual que não tenha sido vítima deste mal, que ma indique.
Da mesma forma e pelos mesmos motivos, sou bastante céptico em relação a um encontro de webloggers…
Não quer isto dizer que deixe de visitar, de comentar ou linkar os meus weblogs preferidos diariamente. Isso farei sempre, pois julgo que é esse (e apenas esse) o verdadeiro espírito dos blogs.
De qualquer forma ficarei atento à evolução. Pode ser que esteja redondamente enganado… :)


18
Mai 03

PicLog

Está inaugurado o piclog, um lugar onde irei colocando imagens, scans ou outras memórias gráficas dos meus dias. Estou a começar pelo passado, colocando recordações de tempos que já lá vão. Vai demorar… :-)