Insónia

Deitei-me com a noção de que ía ser uma noite difícil. Calor e sono são duas coisas que teimam em não querer nada uma com a outra na minha pessoa. Esperei pacientemente que as minhas pálpebras ficassem pesadas, de maneira a deitar-me no momento certo, para adormecer logo que nem uma pedra. É fácil, vão ver.
Dispo-me e nem me passa pela cabeça vestir o pijama. Ponho o telele a carregar, não que ele precise, mas por hábito. Enfio-me na cama debaixo dum solitário e leve lençol. Olho para o livro que ando a ler, mas já tenho os olhos pesados, fica para outro dia. Estico o braço, apago a luz. Escuro. Silêncio. Calor.
Cri cri cri cri. Os sacanas dos grilos já começam o seu ritual de acasalamento, raios os partam. Cri cri cri. Uhuu uhuu. Junta-se-lhes o piar de um mocho, ou coruja, não me perguntem. Uhuu cri cri uhuu cri, diabos os levem. Há meia dúzia de anos não havia aqui mochos, ou corujas, não me perguntem, mas de ano para ano são cada vez mais. Uhuu uhuu. Inicialmente achava os piares fantasmagóricos, depois fui-me habituando, agora são como os grilos, cri cri cri, mais um animal que teima em manter-me acordado, uhuu.
Mas eu já tenho as pálpebras pesadas e dez minutos depois estou quase a dormir. Sonâmbulamente ocorre-me “yes! consegui!”. Até que de repente, ouço atrás de mim, no limiar da minha capacidade auditiva, um *clack*, digo *clack* na falta de melhor onomatopeia, não que *clack* seja o som exacto que eu ouvi.
Foda-se, o que foi isto? Quem é o ladrão, gatuno, larápio, ou pior, fantasma, alma-penada, espírito-maligno que ousa interromper o meu processo de adormecimento tão bem programado? Procuro o interruptor da luz, tacteando por todo o lado, passando com a mão pelo livro que ando a ler, mas não hoje, porque tinha os olhos pesados e pelo telemóvel que está a carregar, mais por hábito que por necessidade. Luz. Tento apanhar o larápio-ladrão-alma-penada-fantasma de surpresa, mas nada, o gajo já se tinha pirado, raios o partam. Espero dois minutos e nada. Apago a luz, viro-me para o outro lado, desisto de utilizar o lençol e tento retomar o tempo perdido. Menos de vinte segundos depois, *clack*. Que merda é esta? Um gajo não pode dormir descansado? A mão voa para o interruptor. Luz. Nada. Desligo o telemóvel do carregador, talvez seja ele a fazer o barulho. Levanto o livro para ver se tem algum bicharoco lá debaixo. Espero pacientemente pelo próximo *clack* dos infernos. Cinco minutos, dez minutos. Do *clack* nem sinal, mas começo a ouvir um mas-que-raio-de-barulho-é-este-que-parecem-tambores-ou-será-trovoada, vindo da rua.
Se calhar devia levantar-me e ir ver se conseguia ver alguma coisa que se visse, mas não me apetece raios, no fundo sei que isto é só paranóia. Tum tum tum brrum tum tum. Cri cri cri. Uhuu. Felizmente do *clack* nem sinal. À uma da manhã começo a stressar, não vou dormir nada esta noite, está visto. Entretanto o mas-que-raio-de-barulho-é-este-que-parecem-tambores-ou-será-trovoada pára e decido arriscar e apagar a luz. Temo ouvir um novo *clack*, mas o cansaço ganha e adormeço antes do fantasma-gatuno se voltar a manifestar.
Ai… Que saudades das suaves noite de Inverno, com a hipnotizante música da chuva a cair, com as suas trovoadas de embalar e com vinte quilos de cobertores em cima. Que saudades de dormir que nem uma pedra…

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