Agosto, 2003


23
Ago 03

De volta

Após 7 dias de viagem de norte a sul do país, eis que regresso a casa, estafado da última etapa – quase 9 horas de comboio desde Faro.
50 mails para ler, alguns directos para a reciclagem, outros merecem uma breve passagem de olhos, poucos sobram para responder. No email do ptbloggers as coisas são mais complicadas, há muita gente com dúvidas, mas começo a não ter paciência para explicar que a manutenção dos blogs de cada um não me diz respeito, e não tenho qualquer obrigação em explicar como se efectuam novos posts… :\
3 cartas me esperam junto ao teclado: uma factura já paga, respeitante ao alojamento do omeudiario.net, o ordenado de Agosto e uma carta registada dum advogado dizendo que

“Encarrega-me o IPL de proceder à cobrança das propinas, referentes ao ano lectivo de 1999 / 2000, no montante de Euros – 103,50 €, que V. Exª não liquidou àquele estabelecimento de ensino.
Assim, venho convidá-lo(a) a regularizar a situação no prazo máximo de 10 (dez) dias, findo o qual ver-me-ei forçado a proceder judicialmente contra V.Exª.”
Com os melhores cumprimentos”

Ora se se fossem foder em vez de me fazer perder o meu tempo, talvez fosse bem melhor, não? Obviamente irei pagar a merda das propinas, e endereçar uma carta ao director dos serviços académicos com uma queixa relativamente a este tratamento ridiculo e à incompetência absurda dos funcionários. Afinal de contas eu ofereci-me para pagar as propinas em Agosto de 2000, e até escrevi sobre o assunto no meu weblog na altura. Três anos depois, e sem qualquer aviso ou novo pedido de pagamento, ameaçam-me com um processo judicial? Isto só pode dar para rir de tão ridículo que é.

Amanhã, menos cansado e mais bem disposto, falarei da viagem… :)


8
Ago 03

Primeira semana de férias

O intenso calor estraga-nos os planos. Com este calor não é possível viajar, passear, visitar cidades, lugares, monumentos… Adiamos os planos até o ar refrescar um pouco, até aos incêndios se apagarem… Sobre os incêndios, já escrevi aqui
Aproveitamos a semana para tratar de burocracias. E que burocracias, não queiram imaginar. Só quem passou por situações semelhantes pode imaginar o desespero que nos atinge, a sensação de impotência perante uma máquina tão bem oleada como é a do Estado. Finanças, conservatórias, registos, matrizes, artigos, destaques, indivisos, uma confusão sem ponta por onde se lhe pegue!


4
Ago 03

Continua. Dia e meio depois, o Pinhal do Rei(*) ainda arde. Tentei aproximar-me do local, mas a polícia impede a passagem na estrada entre S. Pedro de Moel e a Praia da Vieira. Do local onde estou, a cerca de 20 Km do incêndio, consigo ver as chamas.
Ao fumo deste incêndio, junta-se o da Batalha, o de Pombal, desfocando a paisagem e tornando imperceptíveis os pormenores. Tornou-se óbvio que a maior esperança está na mudança de tempo, e não nas mãos dos homens.

(*) Escrevo Pinhal do Rei, e não Pinhal de Leiria, porque existe alguma polémica relativamente a este último nome. A Mata Nacional abrange vários concelhos, entre Alcobaça e Pombal, incluindo o da Nazaré, o da Marinha Grande e o de Leiria. A extensão maior encontra-se na Marinha Grande, e muitos habitantes deste concelho consideram injusto chamar-lhe apenas “Pinhal de Leiria”.


2
Ago 03

Um dia

Calor
Quando eu era pequeno, o alcatrão tornava-se liquido, e lá marcávamos as nossas pegadas.
Quando eu era pequeno, mesmo no Inverno, os pés aqueciam-me de tal maneira ao andar, que não me restava alternativa senão passar por dentro das poças de água da chuva que me apareciam pelo caminho.
Hoje o alcatrão é outro, o calor é outro, ou eu sou outro…

Fogo
Também eu vivo rodeado de pinheiros. Não há janela alguma em toda a casa que não tenha vista para um pinhal.
Há 20 anos, também por aqui houve um fogo de meter respeito. Era criança e as memórias apagam-se aos poucos. Recordo a primeira coluna de fumo, ainda ao longe, enorme, negra, assustadora. Depois são vagas memórias de confusão, de pessoas a correr, de histerismo, de carros de bombeiros, de multidões. É-me difícil recordar a imagem do fogo propriamente dita, apesar de ele ter passado a escassos metros da minha casa. Porquê esse esquecimento? Talvez porque outras imagens tenham ficado mais bem marcadas, ou talvez porque como criança que era, não tenha dado importância, ou talvez porque de alguma forma me tenham protegido dessa visão.
Recordo o dia seguinte, o negro, a paisagem desolada, as pequenas colunas de fumo esbranquiçado que surgiam ali e além. Recordo o meu pai e os restantes vizinhos de vigia, calcorreando o pinhal para evitar reacendimentos.
E ainda que fosse mais uma memória de infância que pudesse cair no esquecimento, o negro nos pinheiros manteve-se durante anos a fio, acompanhando o meu crescimento, impedindo o esquecimento. Hoje um olhar despreocupado apenas vê o verde, mas um olhar cauteloso ainda poderá encontrar as marcas…

Liz
Há algumas horas, ao passar numa ponte sobre o Liz, com os vidros do carro abertos por causa do calor, fui de imediato bafejado com um insuportável cheiro a merda. Mais uma descarga poluente? Talvez não. Provavelmente é apenas o calor que apura o cheiro da habitual merda escorrente… Convém salientar a palavra habitual, uma vez que os menos bem informados, poderiam pensar que o Liz é um rio poluído, apenas quando se efectuam descargas poluentes que dão direito a notícia nos jornais.


2
Ago 03

Noite. Ao longe, por entre os pinheiros, um clarão vermelho ilumina o céu.
No IRC, que apesar dos blogs, continua a ser o meio mais indicado para receber informação imediata através das pessoas que vivem os acontecimentos, ouço o que já temia. O Pinhal de Leiria, com os seus recantos, as suas árvores notáveis, com as suas sombras e locais secretos, está a arder. Aparentemente na área do Samouco, onde se realizou o último piquenique do #eterno, em direcção a Carvide. É impossível neste momento compreender a dimensão e a direcção que o fogo vai seguir. Ficam as conversas do IRC, que enfim, tanto podem ser verdade como mentira. “A estrada entre a Marinha Grande e a Vieira está cortada”, “A estrada entre S. Pedro e a Vieira está cortada”, a polícia está a mandar para trás toda a gente que tenta chegar às praias.
Vamos ver o que nos trará o dia seguinte…