Ainda a greve

Esqueci-me de deixar aqui o apontamento duma carta registada que recebi à dias. O remetente era a minha chefe:

Assunto: Comunicação de Falta Injustificada

Em virtude de não ter comparecido ao trabalho no dia 9 de Outubro de 2003 e não ter justificado a sua ausência, vimos por este meio comunicar-lhe que foi considerado em Falta Injustificada.

É uma missiva curta, mas suficientemente indicativa da má fé e da incapacidade que move a actual administração. O sindicato optou por continuar a discussão sobre as faltas aplicadas aos largos milhares de trabalhadores (70%) que aderiram à greve, colocando a empresa em tribunal.

Entretanto, hoje tivemos uma reunião com a chefia, que se mostrou surpreendida com a nossa aderência à greve. Tentava ela compreender o que estava mal, porque não esperava tal adesão no nosso local de trabalho. Bem, como é óbvio, isto deu muita conversa. Primeiro, o M. atirou-lhe logo à cara que o que ela estava a fazer era anti-constitucional: em caso algum um trabalhador tem de explicar os motivos que o levam a fazer greve, seja a quem fôr. Ela lá se tentou escapar, dizendo que não estava a pedir explicações, mas que apenas gostava de compreender o que estava mal.
O A. disse então que fez greve por saber que não íamos receber subsídio de almoço em Novembro. Aí tivemos uma nova discussão sobre esse assunto, tentando ela justificar que certamente a administração não íria fazer nada de ilegal, bla bla bla. Não convenceu ninguém.
A C. tocou então no ponto, explicando o verdadeiro motivo da nossa adesão: excesso de trabalho. A L., que entretanto voltou para o lado da razão (como seria de esperar), atirou alguns argumentos bastante fortes acerca da impossibilidade de continuarmos com o sistema actual. A Engª alegou que estava uma reestruturação em curso e que íriamos tentar acertar o tamanho dos giros de maneira a não haver uns leves e outros pesados. Giros leves? Quais giros leves? Este tipo de afirmações, juntamente com a confissão de surpresa sobre a nossa aderência à greve, levam-me a concluir que ela não parece estar a desempenhar o seu papel muito correctamente. Parece-me um pouco a leste de tudo o que se passa, mas não é novidade: todos os seus inúmeros antecessores estiveram sempre na mesma situação.
Finalizou com um “bom dia de trabalho para todos”, sem sequer dizer algo do género “vamos ver o que se pode fazer”. Senti o pessoal muito desiludido com a reunião. Confesso-me bastante ansioso com o que o futuro nos trará. Não vejo forma de as coisas poderem continuar neste estado. Haverá um ponto em que a bomba explode, e aí, salve-se quem puder.

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