Amor

Aproveitando a inclusão do link para o blog Aldeia de Amor, deixo-vos aqui uma das inúmeras versões da lenda poética que relata a origem do nome da minha aldeia:

Foi o desvio amoroso por essa louçana de corpo delgado que deu origem à poética lenda com que se explica a toponímia da bucólica aldeia de tão sugestivo nome: aldeia de Amor – nos arredores litorâneos de Leiria.

Contou-a Júlio Dantas em páginas onde a imaginação do romancista entreteceu artisticamente a ficção histórica com a graça da narrativa tradicional. Também o Conde de Sabugosa a conta por forma aproximada atribuindo o local da cena ao Lumiar. Tudo indica, porém, que se trata da povoação de Amor e do pinhal de Leiria. A flor do piño das suas cantigas identifica suficientemente a paisagem e o local que o Trovador criara e duplamente compusera com a sementeira do pinhal e a conquista agrária do paúl de Ulmar. Ambas as poesias parecem estar ligadas à mesma história de amor.

E quanto ao entrecho da lenda, divergem aquelas narrativas da versão da tradição local, nossa conhecida desde criança. Cremos que deve ser esta a primitiva forma, pois que nas outras, além de psicologicamente falsas no que respeita à Rainha, falta o elemento do maravilhoso e a intervenção do sobrenatural que nesta existe e é característica das legendas áureas que se referem à vida das santas.

É pois na forma que julgamos primitiva que vamos contar a formosa lenda.

Em seus paços de Leiria a abandonada real sofria com a suspeita dos devaneios del-Rei nas furtivas saídas do baiozinho para as bandas do litoral, porventura com o pretexto de inspeccionar a enorme floresta em que pusera tão subido interesse e donde não voltava senão tardiamente e a más horas…

Ora, numa noite de lua nova, regressava o enamorado do seu abrigo de amor quando, em meio da escuridão, começou a ver surgir ao longo dos caminhos, ígneos e fantásticos bulcões de fogo, lumes espectrais que misteriosamente se erguiam e desfaziam no negrume da noite, espantando o baiozinho amedrontado e o cavaleiro que vertiginosamente corria em alucinante desfilada. Quando à chegada do palácio, ainda deslumbrado pela perseguição das chamas, el-Rei desmontou da cela do cavalo cujos músculos tremiam nervosamente sob a pele crispada e alagada de suor, deparou com Santa Isabel que voltava de rezar matinas na igrejinha castelã da Senhora da Pena. E contou-lhe, assombrado ainda pela maravilha, a aparição dos fantásticos fogachos por entre cujos clarões vinha de fazer uma corrida desvairada.

E logo Isabel, com um sorriso tímido na ingénua luz do seu olhar: Senhor! Decerto seriam luzes para alumiar os vossos olhos que tão ceguinhos andam de amor…

Cortez Pinto, Diónisos, Poeta e Rey

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