Eragon

Este livrinho já estava na prateleira há algum tempo, mas só agora, com a chegada das férias, tive paciência para lhe deitar as mãos…

Como apreciador e leitor mais ou menos compulsivo deste género literário, há certas coisas que espero encontrar ao agarrar na obra de um novo autor. Lamentavelmente, Paolini não esteve à altura.

Vamos por partes.

A história é interessante e consegue agarrar o leitor. Tanto assim é que, já agarrei no segundo volume e comprei o terceiro. Aí, consegue o autor ir de encontro às expectativas. Nada mau, para um adolescente.

Quando agarro num livro de fantasia, porém, espero mais que isso. Espero ser surpreendido por mundos tão diferentes, habitados por seres tão estranhos, que seja impossível reconhecê-los de outros lados.

Não é tarefa fácil, eu sei! Raros são os autores que conseguem fugir dos estereótipos dos elfos, anões, dragões, orcs e trolls! No fundo, nem esperava que Paolini o fizesse. Escapar dessa fantasia clássica não é tarefa fácil e poucos são os autores que se atrevem a tanto.

Então, porque me queixo?

Paolini foi longe demais na sua “reutilização” de mundos fantásticos. Qualquer leitor atento poderá apontar as semelhanças entre a sua obra e outras, escritas há dezenas de anos. E, no que toca à fantasia, as ideias são geralmente tão rebuscadas que é praticamente impossível tratar-se de “coincidência”.

Reparem.

Muitos magos de grande poder levaram toda a vida para descobrir o verdadeiro nome de uma única coisa… um único nome perdido ou escondido. E mesmo assim as listas não estão acabadas. [...] a magia, a verdadeira magia, só é obra daqueles que falam a língua hardic de Terramar, ou a velha fala da qual ela nasceu.

É essa linguagem que os dragões falam, e a linguagem que Segoy falou quando fez as ilhas do mundo, e a linguagem das nossas ordens e canções, feitiços e encantamentos e invocações. [...]

Ninguém conhece o verdadeiro nome de um homem, menos ele e quem lho deu. Ele pode decidir a seu tempo dizê-lo a seu irmão, ou a sua mulher, ou ao seu amigo [...] Na frente das outras pessoas, eles, como toda a gente, tratá-lo-ão pelo seu nome de uso, a sua alcunha [...] Quem conhece o nome de um homem tem a vida desse homem nas suas mãos. [...]

Ainda que o uso da velha fala obrigue um homem a dizer a verdade, isso não acontece com os dragões. É a sua linguagem e eles podem mentir nela, torcendo as palavras verdadeiras para falsos fins [...]

in “O Feiticeiro de Terramar”, Ursula Le Guin, 1968

Agora, se desejas empregar o poder, deves pronunciar a palavra ou a expressão da língua antiga que descreve a tua intenção. [...] Além disso, quando se está a falar essa língua, é impossível praticar o engano. [...]

- E os Elfos falam esta linguagem?
- Sim.
- Então nunca mentem.
- Não é bem assim – admitiu Brom. – Eles insistem que não mentem, e de certa forma isso é verdade, mas aperfeiçoaram a are de dizer uma coisa e significar outra. [...]

Aqueles que falam a língua têm dois nomes. O primeiro é para uso quotidiano e tem pouca autoridade. Mas o segundo é o seu nome verdadeiro e é partilhado apenas com algumas pessoas de confiança. [...]

in “Eragon”, Christopher Paolini, 2003

Para não alongar demasiado este post, aponto apenas outra grande semelhança – a relação cavaleiro/dragão que  encontramos no Eragon e nas novelas de Anne McCaffrey, “Dragonriders of Pern”, também de 1968.

Parece-me que vai um pouco além de “mera inspiração”…

Apesar de tudo, não se fiem nas minhas palavras: leiam! :)

Ah, também vi o filme, mas nem vale a pena comentar.

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