Quando pego num livro de fantasia de um novo autor, não consigo deixar de sentir uma ligeira inquietação. Nos últimos anos, à medida que este género literário vai ganhando adeptos, as obras medíocres (algumas delas conseguindo atingir o patamar de best sellers), têm-se sucedido a uma velocidade vertiginosa.
A dura realidade é muito simples: depois do pioneirismo dos primeiros autores deste género, muito poucos têm trazido algo de novo. Sucedem-se as cópias e a reutilização de ideias mil vezes descritas. Assim, ao ler as primeiras linhas de um autor desconhecido, apenas me ocorre uma pergunta: quem irá este copiar?
As generosas críticas ao Nome do Vento fizeram-me acreditar que talvez, (talvez!), Patrick Rothfuss tivesse conseguido escrever algo diferente. Será?
A resposta não é simples nem linear.
Uma das críticas que me fez acreditar que A Crónica do Regicida (nome desta trilogia) merecia um olhar mais atento, foi a de Ursula K. Le Guin (umas das verdadeiras Autoras de literatura fantástica). Escreveu ela: “It is a rare and great pleasure to come on somebody writing the way (Patrick Rothfuss does), not only with the kind of accuracy of language that seems to me absolutely essential to fantasy-making, but with real music in the words as well…. Oh, joy!”
Por outro lado, algumas críticas com pretensão de positivas, acabam por ter o efeito contrário: “Os fãs de Harry Potter ansiando por uma nova série excitante não precisarão de procurar além de O Nome do Vento”, escreveu a Amazon. Palavras que, lamentavelmente, podem ser encontradas na capa da versão portuguesa deste livro.
Dando-lhe o benefício da dúvida, peguei no imenso livro de 966 páginas e dispus-me a lê-lo sem preconceitos.
Não foi à toa que falei de Ursula Le Guin e do Harry Potter. Efectivamente, a comparação com ambos é inevitável – essencialmente porque o Harry Potter tem muito de O Feiticeiro de Terramar de Ursula Le Guin. E, à semelhança de ambos, também o herói de O Nome do Vento é um jovem que sonha ser feiticeiro e ingressa numa escola. À semelhança de Terramar, também a magia de Rothfuss envolve os verdadeiros nomes das coisas. À semelhança do Harry Potter, também o herói desta nova história é órfão. As semelhanças, porém acabam aí.
O Nome do Vento não é literatura infanto-juvenil. Toda esta história se desenrola num ambiente muito mais tenebroso, violento e, por vezes, macabro. Apesar do protagonista ser jovem, as situações para que vai sendo, sucessivamente, arrastado, parecem-me demasiado intensas para um público juvenil.
Esta realidade, de certa forma, dá um novo contorno a toda a trama. Sem receio de invocar imagens de sangue ou sugestões de prostituição, Rothfuss aposta, definitivamente, num público mais exigente, afastando-se radicalmente das suspirantes adolescentes apreciadoras do jovem feiticeiro de J. K. Rowling.
A história é contada a dois tempos, com uma narrativa dentro de outra (e, por vezes, ainda com uma terceira, dentro da segunda!). Na prática, isto significa que temos algumas respostas antes de conhecermos a perguntas ou, dito de outra forma, conhecemos o final sem sabermos como fomos lá parar. Poderia tornar-se confuso, mas o autor consegue tornar clara toda a acção.
No final do primeiro livro da trilogia, a sensação que fica é comum a tantas outras obras separadas em diversos volumes: sabe a pouco. Aqui, no entanto, essa sensação é reforçada pelo nosso conhecimento da história contada a dois tempos.
Sem me querer atrever a ir demasiado longe, a leitura deste primeiro volume, dá-nos a sensação de termos lido o prólogo de uma história que ainda nem começou. São poucos os autores capazes de fazer isto.
Uma nota final para o inevitável filme que surgirá, mais ano menos ano: não será uma conversão fácil e, tenho até algum receio do resultado. Os livros do Harry Potter têm uma estrutura linear, totalmente cinematográfica e um público alvo muito específico. A vida de Kvothe (é esse o seu nome), por outro lado, é contada de trás para a frente e de frente para trás, e envolve a construção de um Universo tão rico como complexo. É possível fazê-lo, obviamente! A Bússola Dourada é um exemplo de uma brilhante adaptação. Infelizmente, há também alguns maus exemplos, entre os quais está o infeliz Feiticeiro de Terramar.
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Isso quer dizer que o nome do vento é desvendado logo ao início da história e não no fim?
jk
Não é bem por aí JK, o nome do Vento até aparece, mas você não o ouve… se é que ele pode ser mencionado aos “não iniciados”… é muito maior que isso… e o livro, apesar do começo um pouco devagar, toma conta do leitor quase como uma abdução…
eu aprovei… e espero ansioso pelo volume 2…