Ambiente


24
Abr 10

Vale Furado

A Praia do Vale Furado, com as suas arribas greso-argilosas de origem oligocénica, apresenta um aspecto algo invulgar na costa Ocidental portuguesa. O difícil acesso, torna-a pouco convidativa a turistas de ocasião, embora seja bastante frequentada por pescadores e pelos amantes do sossego. ;)

Aqui ficam algumas fotos da minha última visita, que me valeram um banho inesperado. :D


5
Abr 10

O contributo da Educação Ambiental para a inovação social

Em 1975, na sequência do workshop sobre Educação Ambiental a decorrer em Belgrado, é elaborada a Carta de Belgrado sobre a Educação Ambiental. Este documento reconhece a necessidade de instituir uma nova ética universal que, à luz duma nova reflexão sobre as relações do ser humano com o seu semelhante e com a Natureza, inspire um novo ideal, baseado numa repartição equitativa das reservas, colocando a melhoria da qualidade de vida das populações acima dos interesses económicos.

Este novo olhar sobre as relações do Homem com a Natureza e com o seu semelhante, reflecte a necessidade de uma educação para o desenvolvimento sustentável, defendido no relatório O Nosso Futuro Comum, de Gro Brundtland:

“O Futuro dos nossos filhos depende da nossa capacidade de aprendermos a viver em harmonia com a Natureza e com os outros. Desenvolvimento equilibrado quer dizer que não podemos continuar a satisfazer as nossas próprias necessidades à custa das gerações futuras.”

Por forma a atingir os seus objectivos, porém, a Educação Ambiental precisa transmitir mais que um mero conhecimento científico sobre o Ambiente: é necessário motivar e fomentar um sentido de participação cívica que desencadeie a vontade de trabalhar individual ou colectivamente por forma a resolver os problemas ambientais do presente e evitar os do futuro. Estamos, assim, no domínio da educação cívica.

Efectivamente, os objectivos da Educação Ambiental, só poderão ser atingidos através de uma abordagem interdisciplinar. É necessário transmitir a noção de que o Ambiente está presente em todas as facetas da sociedade. A nível da educação formal, essa ideia deverá ser transmitida recorrendo a todo o currículo académico, não restringindo a Educação Ambiental às disciplinas de teor científico.

Chegará o momento em que uma nova geração, acompanhada pela Educação Ambiental desde a infância, irá gerir o Planeta de acordo com o Princípio da Sustentabilidade. Não se tratará, então, de uma imposição de um governo ou da pressão de um grupo. A gestão sustentável dos recursos surgirá naturalmente, fruto de anos de Educação Ambiental, assim como a gestão economicista que hoje nos rege, surgiu de uma educação que sugeria a ideia de que a riqueza material traria a felicidade e resolveria todos os problemas do Mundo…

Os primeiros passos já foram dados e os resultados desta Educação começam a surgir de forma discreta mas segura – a crescente adesão da população às associações de defesa do ambiente e a tomada de consciência de que um ambiente saudável é um direito de todos e de cada um, pelo qual se deve lutar, são disso exemplo.

Outros sinais, porventura não tão mediáticos mas não menos importantes, são bem notórios e esclarecedores do percurso que, pouco a pouco, agora se inicia.

A separação e reciclagem de resíduos domésticos, é hoje uma realidade que seria impensável há alguns anos. O principal obstáculo a ultrapassar não foi material ou tecnológico! A dificuldade foi convencer a população que os actos individuais têm uma importância global. Substituir o típico pensamento “o que posso eu fazer sozinho para mudar as coisas?” pela ideia de que cada um de nós pode contribuir individualmente para um ambiente melhor terá sido, porventura, uma das primeiras grandes vitórias da Educação Ambiental.

Curiosamente, o caso da separação e reciclagem, permite-nos ainda observar a evolução da Educação Ambiental e do seu impacto nas diferentes gerações. Neste caso em particular, é notório um maior sentimento de dever nas gerações mais novas, precisamente aquelas que foram educadas nesse sentido desde cedo.

Outras iniciativas, de que é exemplo a recente Limpar Portugal, revelam outra vertente e demonstram de forma clara, outro resultado da Educação Ambiental. Uma participação cívica deste género é inovadora no sentido em que demonstra como os cidadãos começam a compreender, finalmente, que são também responsáveis pelo Ambiente e que podem zelar por ele em conjunto, independentemente das acções do Estado.

São apenas dois exemplos que revelam os primeiros sinais de resultados efectivos da Educação Ambiental. No futuro, estes dever-se-ão multiplicar, alterando profundamente a sociedade em que vivemos. Aos poucos, o Homem tomará consciência de que a sua felicidade não é conquistada pela riqueza material, mas sim pela riqueza natural que o envolve. Passo a passo, a Educação Ambiental revelará a necessidade de fraternidade entre os povos – na realidade, o desenvolvimento sustentável assim o exige e a Educação Ambiental é o método de o conseguir.

Na luta pela sobrevivência do Ambiente, a Educação Ambiental está a tentar algo que inúmeras religiões e impérios tentaram ao longo de milénios sem sucesso: unir os povos da Terra na preservação de um interesse comum, conquistando, pelo caminho, a paz, o progresso e o bem-estar de todos.

Oxalá consiga.


2
Abr 10

RenovaGreen

“O nosso objectivo não é ganhar dinheiro, devemos isto aos cidadãos.”
Paulo Pereira da Silva, presidente do grupo Almonda SGPS

A Renova Fábrica de Papel do Almonda, SA, é uma empresas portuguesas que, apostando numa estratégia de ecodesign, adoptou uma rotulagem ecológica, criando para o efeito uma gama específica de produtos: RenovaGreen. Nestes produtos se incluem: papel higiénico, rolos de papel de cozinha, guardanapos e lenços de bolso.
Apesar do ciclo de vida destes diferentes produtos ser muito semelhante, define-se como unidade funcional da presente análise, uma embalagem de rolos de papel de cozinha.

diagrama

O ciclo de vida deste produto, esquematicamente representado no diagrama geral de fluxos, inicia-se com a aquisição da matéria prima: o papel usado. De acordo com a informação prestada por esta empresa, os produtos desta gama são fabricados unicamente a partir de pasta de papel reciclado, produzida localmente nas unidades fabris da companhia:

Não abatemos árvores nem consumimos pasta proveniente de uma gestão sustentada da floresta. A única floresta que gerimos é a “floresta urbana”: os escritórios e as casas de onde provém o papel já usado.

Obviamente, a aquisição e transporte deste papel usado, implicam um consumo de energia (combustíveis fósseis) e a inevitável libertação de resíduos para o meio (emissões atmosféricas).

O processo de manufactura, inicia-se com a recepção e armazenamento desta matéria prima e a subsequente transformação em pasta de papel. Durante este processo é necessário o consumo de água e, uma vez mais, de energia (electricidade). A empresa tem procurado reduzir estes consumos, reaproveitando sempre que possível, a água anteriormente utilizada. Não são utilizados, durante este processo, produtos intermédios que contenham substâncias consideradas perigosas: corantes, tintas, perfumes ou cloro.
As saídas finais deste subsistema, incluem a pasta de papel, e resíduos líquidos (lançados no rio Almonda após tratamento) e gasosos (lançados na atmosfera).

O subsistema seguinte é mais uma das etapas do processo de manufactura e consiste, neste caso, na transformação da pasta de papel em rolos de cozinha. Durante este processo, uma vez mais, existe consumo de energia eléctrica e libertação de resíduos para o ambiente.

Para o processo de embalagem do produto são utilizados materiais igualmente reciclados e fabricados em unidades localizadas num raio de 400 km, de forma a minimizar o combustível consumido durante o seu transporte.

Após a fase de utilização, a embalagem poderá dar entrada num sistema de reciclagem, enquanto o destino final do produto (papel de cozinha usado) será a incineração ou a deposição em aterro (efluentes gasosos e resíduos sólidos, respectivamente).

Os principais competidores da Renova são multinacionais de grandes dimensões. A consciência da sua pequena dimensão face à concorrência, leva esta empresa a apostar em produtos inovadores, entre os quais se encontram os da gama RenovaGreen.

A atribuição do Rótulo Ecológico Europeu funciona, deste modo, como marca distintiva face aos produtos da concorrência. Os consumidores, cada vez mais preocupados com as políticas ambientais das empresas, recorrem à rotulagem ecológica como forma de selecção dos produtos amigos do ambiente. Desta forma, a Renova procura alcançar um nicho comercial que, mesmo não sendo muito significativo na actualidade, tem franca tendência a aumentar exponencialmente durante os próximos anos.

A análise de ciclo de vida envolvida no ecodesign do produto, implica, por outro lado, uma atenção redobrada ao consumo de energia e materiais e à produção de resíduos o que, por si só, poderá significar uma redução dos custos de produção face aos produtos que não sejam sujeitos a este tipo de estudo.

A opção pela utilização de matéria prima integralmente reciclada e a não utilização de substâncias perigosas durante a fase de manufactura, porém, resultam num custo acrescido face à produção tradicional. O passo lógico, e quase inevitável de acordo com o modelo económico, seria a empresa lançar estes produtos no mercado com um custo mais elevado relativamente a produtos semelhantes produzidos segundo os métodos tradicionais. A Renova, surpreendentemente, não o fez. De acordo com Pereira da Silva, presidente do grupo, “os RenovaGreen não serão mais caros, indo competir com os outros produtos menos amigos do ambiente”.

Embora esta afirmação seja complementada com a frase que inicia este trabalho, numa clara referência à dívida ambiental que a empresa acumulou durante anos de actividade, trata-se, no fundo, de uma elaborada estratégia de marketing. O rótulo ecológico poderá não resultar em dividendos económicos imediatos mas é uma clara aposta no futuro.

Enquanto consumidor, toda a gama de produtos RenovaGreen se apresenta bastante atractiva.
Do ponto de vista ambiental, sabemos que o consumo destes produtos está a contribuir para a preservação das florestas e que há um cuidado acrescido na tentativa de diminuição da produção de resíduos.

Com preços similares aos produtos da concorrência, não faz sentido escolher outra solução: estas, na generalidade, não só não apresentam o rótulo ecológico, desconhecendo-se, portanto, o seu processo de fabrico, como têm origens extranacionais, aumentando a distância do transporte e, consequentemente os níveis de emissões atmosféricas.


6
Nov 09

As empresas e a biodiversidade

Serviços de Ecossistema – reconhecendo a realidade
Foi necessário percorrer um longo caminho, repleto de obstáculos e percalços, para que o Homem tomasse consciência do que deveria ser óbvio: como fruto da evolução e como mero membro da biodiversidade terrestre, também nós estamos inteiramente dependentes dos serviços dos ecossistemas. Durante milhares de anos, sempre tomámos como garantidos todos os bens e produtos que a Natureza nos oferece, sem questionar a sua disponibilidade ou sem considerar os seus eventuais custos. Como resultado, fomos utilizando abusivamente todos os recursos naturais quase até à sua exaustão, fomos deteriorando os ecossistemas quase até ao ponto de não ser possível a sua recuperação.

Em 1992, no âmbito da Convenção para a Diversidade Biológica, abriram-se, finalmente, as portas para uma maior compreensão da nossa dependência dos ecossistemas e dos passos necessários para a sua preservação.

Biodiversidade: transformando a crise em negócio
Após a tomada de consciência da necessidade de preservar a biodiversidade como base de sustentação dos serviços de ecossistema, dos quais depende o bem estar humano, surge uma questão incontornável: como aliciar o sector privado a participar activamente nesta preservação? À partida, parecerá algo utópico solicitar às empresas, cujo objectivo é a obtenção de lucro, que invistam capital neste campo sem com isso vislumbrarem quaisquer benefícios a curto prazo.

Se para alguns ramos de actividade, caso da agricultura, da caça ou do turismo, o valor da biodiversidade é intrínseco e inquestionável, para outros sectores, como é o caso de inúmeras industrias e serviços, não é tão fácil encontrar uma relação directa entre a biodiversidade e a actividade exercida. O elemento de ligação são, inevitavelmente, os serviços dos ecossistemas, de que todas as actividades económicas dependem, directa ou indirectamente.

A questão, porém, mantém-se: porquê pagar por um bem ou serviço que se encontra abundantemente disponível e do qual sempre todos puderam usufruir sem contrapartidas? O primeiro passo para responder a esta questão, será avaliar os riscos associados à perda de biodiversidade.

Em primeiro lugar, uma sociedade civil cada vez mais informada e exigente, tenderá a optar, preferencialmente, pelos produtos e serviços de empresas ecologicamente responsáveis. As implicações legais de uma má conduta ambiental, como é o caso da aplicação do principio do poluidor pagador, poderão ter um peso determinante na sobrevivência económica das empresas. Finalmente, o uso sustentável dos recursos biológicos é, em última análise, condição necessária para a sobrevivência de todas as empresas pois, a quebra dos serviços de ecossistema implicará a ruptura do fornecimento de bens indispensáveis.

Por uma simples análise da situação inversa, encontraremos uma oportunidade associada a cada um destes riscos: empresas socialmente responsáveis atraem investimento, os produtos e serviços ecologicamente certificados têm maior procura, uma racional utilização dos recursos traduzir-se-à numa redução de custos.

Compreendendo a necessidade imperativa de conservar a biodiversidade, coloca-se, finalmente, a questão: como o fazer? A multiplicidade de respostas possíveis, dependerá do tipo de empresa e de actividade económica em que se insere. Uma primeira análise desta questão revela duas possibilidades:

  1. O negócio tem impacto na biodiversidade: efectivamente, é virtualmente impossível consolidar uma empresa sem qualquer impacto ambiental, pelo que restará aos seus gestores implementar uma politica de controlo ambiental que reduza ao mínimo os prejuízos ambientais provocados pela sua actividade.
  2. A biodiversidade é o próprio negócio: caso de empresas que adquirem terrenos com alto valor de biodiversidade com intenção de os preservar, que controlam o acesso a espécies ou habitats mediante um pagamento, ou que fazem a gestão da biodiversidade em determinadas áreas.

E é, finalmente, na relação entre estas duas vertentes que se encerra o novo paradigma da biodiversidade como negócio. Uma vez que é praticamente impossível reduzir a zero os impactos na biodiversidade, as empresas deverão compensar a sociedade investindo em créditos ambientais, ou seja, recorrendo aos prestadores de serviços cujo negócio é a conservação (ou recuperação) da biodiversidade.

De acordo com Mendes Palma, et al., 2008, “Os mercados para os serviços dos ecossistemas, e da biodiversidade em particular, têm vindo a desenvolver-se consistentemente ao longo da última década. Existe a convicção generalizada entre os diferentes players do sector de que esta é uma área de negócio que irá experimentar um acelerado crescimento na próxima década, como alguns dos exemplos dados anteriormente deixam antever”.

Apesar de não se encontrar uma referência explicita no texto do autor, esta visão dos factos parece apontar, quase na totalidade, para o cenário de “Jardim Tecnológico”, traçado pelo Millennium Ecosystem Assessment. Efectivamente, neste cenário, é encorajada a expansão de mercados em serviços de ecossistemas o que se traduzirá numa solução para o conflito entre a economia e o ambiente. Apesar de ser este, porventura, o mais idílico dos quatro cenários descritos neste relatório das Nações Unidas, não é, porém, isento de desvantagens.

A inevitável tentação para gerir todos os ecossistemas do planeta poderá ter o efeito contrário ao desejado. A visão humana (necessariamente simplista) do mundo natural, poderá pôr em causa a sobrevivência de espécies que, possivelmente, não estariam ameaçadas caso os seus ecossistemas ou habitats se mantivessem totalmente selvagens. Por outro lado, o Jardim Tecnológico, dependerá em larga escala da engenharia ecológica e da biotecnologia, diluindo-se a fronteira entre o natural e o artificial, ou seja, haverá tendência para artificializar a Natureza.

Esta visão de futuro depende, obviamente, das acções no presente. Apesar das preocupações ambientais, entre as quais se encontra a quebra da biodiversidade, se encontrarem na ordem do dia, há inúmeros factores politico-sociais que poderão condicionar as decisões tomadas e, consequentemente, os caminhos a trilhar. É impensável, nos dias de hoje, exigir às empresas dos países em desenvolvimento, que coloquem a biodiversidade no topo das suas prioridades. Muitas vezes, porém, é nesses países que a conservação é mais urgente.

Alguns passos importantes foram dados no bom sentido. Compreendemos hoje a importância dos serviços dos ecossistemas e a sua relação com a diversidade da vida na Terra. Esta informação tem conseguido chegar à sociedade civil e aos decisores económicos. Encontrámos alguns métodos que permitirão atingir um equilíbrio entre o progresso e a conservação. Resta, finalmente, encontrar forma de agir de uma forma global, sem esquecer as especificidades regionais de cada país ou região.

As empresas, assim como os indivíduos, não terão propriamente escolha entre preservar ou não preservar a biodiversidade: a conservação é um imperativo. Falta-nos apenas encontrar o melhor método de o fazer.


2
Mar 09

Mammatus

Este Inverno tem sido profícuo em acontecimentos meteorológicos invulgares. Esta tarde tive oportunidade de ver, e fotografar, umas curiosas nuvens mammatus. Aqui fica o registo.