Ambiente


6
Nov 09

As empresas e a biodiversidade

Serviços de Ecossistema – reconhecendo a realidade
Foi necessário percorrer um longo caminho, repleto de obstáculos e percalços, para que o Homem tomasse consciência do que deveria ser óbvio: como fruto da evolução e como mero membro da biodiversidade terrestre, também nós estamos inteiramente dependentes dos serviços dos ecossistemas. Durante milhares de anos, sempre tomámos como garantidos todos os bens e produtos que a Natureza nos oferece, sem questionar a sua disponibilidade ou sem considerar os seus eventuais custos. Como resultado, fomos utilizando abusivamente todos os recursos naturais quase até à sua exaustão, fomos deteriorando os ecossistemas quase até ao ponto de não ser possível a sua recuperação.

Em 1992, no âmbito da Convenção para a Diversidade Biológica, abriram-se, finalmente, as portas para uma maior compreensão da nossa dependência dos ecossistemas e dos passos necessários para a sua preservação.

Biodiversidade: transformando a crise em negócio
Após a tomada de consciência da necessidade de preservar a biodiversidade como base de sustentação dos serviços de ecossistema, dos quais depende o bem estar humano, surge uma questão incontornável: como aliciar o sector privado a participar activamente nesta preservação? À partida, parecerá algo utópico solicitar às empresas, cujo objectivo é a obtenção de lucro, que invistam capital neste campo sem com isso vislumbrarem quaisquer benefícios a curto prazo.

Se para alguns ramos de actividade, caso da agricultura, da caça ou do turismo, o valor da biodiversidade é intrínseco e inquestionável, para outros sectores, como é o caso de inúmeras industrias e serviços, não é tão fácil encontrar uma relação directa entre a biodiversidade e a actividade exercida. O elemento de ligação são, inevitavelmente, os serviços dos ecossistemas, de que todas as actividades económicas dependem, directa ou indirectamente.

A questão, porém, mantém-se: porquê pagar por um bem ou serviço que se encontra abundantemente disponível e do qual sempre todos puderam usufruir sem contrapartidas? O primeiro passo para responder a esta questão, será avaliar os riscos associados à perda de biodiversidade.

Em primeiro lugar, uma sociedade civil cada vez mais informada e exigente, tenderá a optar, preferencialmente, pelos produtos e serviços de empresas ecologicamente responsáveis. As implicações legais de uma má conduta ambiental, como é o caso da aplicação do principio do poluidor pagador, poderão ter um peso determinante na sobrevivência económica das empresas. Finalmente, o uso sustentável dos recursos biológicos é, em última análise, condição necessária para a sobrevivência de todas as empresas pois, a quebra dos serviços de ecossistema implicará a ruptura do fornecimento de bens indispensáveis.

Por uma simples análise da situação inversa, encontraremos uma oportunidade associada a cada um destes riscos: empresas socialmente responsáveis atraem investimento, os produtos e serviços ecologicamente certificados têm maior procura, uma racional utilização dos recursos traduzir-se-à numa redução de custos.

Compreendendo a necessidade imperativa de conservar a biodiversidade, coloca-se, finalmente, a questão: como o fazer? A multiplicidade de respostas possíveis, dependerá do tipo de empresa e de actividade económica em que se insere. Uma primeira análise desta questão revela duas possibilidades:

  1. O negócio tem impacto na biodiversidade: efectivamente, é virtualmente impossível consolidar uma empresa sem qualquer impacto ambiental, pelo que restará aos seus gestores implementar uma politica de controlo ambiental que reduza ao mínimo os prejuízos ambientais provocados pela sua actividade.
  2. A biodiversidade é o próprio negócio: caso de empresas que adquirem terrenos com alto valor de biodiversidade com intenção de os preservar, que controlam o acesso a espécies ou habitats mediante um pagamento, ou que fazem a gestão da biodiversidade em determinadas áreas.

E é, finalmente, na relação entre estas duas vertentes que se encerra o novo paradigma da biodiversidade como negócio. Uma vez que é praticamente impossível reduzir a zero os impactos na biodiversidade, as empresas deverão compensar a sociedade investindo em créditos ambientais, ou seja, recorrendo aos prestadores de serviços cujo negócio é a conservação (ou recuperação) da biodiversidade.

De acordo com Mendes Palma, et al., 2008, “Os mercados para os serviços dos ecossistemas, e da biodiversidade em particular, têm vindo a desenvolver-se consistentemente ao longo da última década. Existe a convicção generalizada entre os diferentes players do sector de que esta é uma área de negócio que irá experimentar um acelerado crescimento na próxima década, como alguns dos exemplos dados anteriormente deixam antever”.

Apesar de não se encontrar uma referência explicita no texto do autor, esta visão dos factos parece apontar, quase na totalidade, para o cenário de “Jardim Tecnológico”, traçado pelo Millennium Ecosystem Assessment. Efectivamente, neste cenário, é encorajada a expansão de mercados em serviços de ecossistemas o que se traduzirá numa solução para o conflito entre a economia e o ambiente. Apesar de ser este, porventura, o mais idílico dos quatro cenários descritos neste relatório das Nações Unidas, não é, porém, isento de desvantagens.

A inevitável tentação para gerir todos os ecossistemas do planeta poderá ter o efeito contrário ao desejado. A visão humana (necessariamente simplista) do mundo natural, poderá pôr em causa a sobrevivência de espécies que, possivelmente, não estariam ameaçadas caso os seus ecossistemas ou habitats se mantivessem totalmente selvagens. Por outro lado, o Jardim Tecnológico, dependerá em larga escala da engenharia ecológica e da biotecnologia, diluindo-se a fronteira entre o natural e o artificial, ou seja, haverá tendência para artificializar a Natureza.

Esta visão de futuro depende, obviamente, das acções no presente. Apesar das preocupações ambientais, entre as quais se encontra a quebra da biodiversidade, se encontrarem na ordem do dia, há inúmeros factores politico-sociais que poderão condicionar as decisões tomadas e, consequentemente, os caminhos a trilhar. É impensável, nos dias de hoje, exigir às empresas dos países em desenvolvimento, que coloquem a biodiversidade no topo das suas prioridades. Muitas vezes, porém, é nesses países que a conservação é mais urgente.

Alguns passos importantes foram dados no bom sentido. Compreendemos hoje a importância dos serviços dos ecossistemas e a sua relação com a diversidade da vida na Terra. Esta informação tem conseguido chegar à sociedade civil e aos decisores económicos. Encontrámos alguns métodos que permitirão atingir um equilíbrio entre o progresso e a conservação. Resta, finalmente, encontrar forma de agir de uma forma global, sem esquecer as especificidades regionais de cada país ou região.

As empresas, assim como os indivíduos, não terão propriamente escolha entre preservar ou não preservar a biodiversidade: a conservação é um imperativo. Falta-nos apenas encontrar o melhor método de o fazer.


2
Mar 09

Mammatus

Este Inverno tem sido profícuo em acontecimentos meteorológicos invulgares. Esta tarde tive oportunidade de ver, e fotografar, umas curiosas nuvens mammatus. Aqui fica o registo.


2
Fev 09

Apanhado do clima!

Não posso afirmar que o meu interesse pelas questões meteorológicas seja antigo. Há cerca de três anos, no entanto, porventura à custa de umas valentes molhas e, eventualmente, curioso com as transformações climatéricas a que o nosso planeta está sujeito, comecei a dar atenção a esta temática.

Na altura, tempo ainda de vacas gordas, adquiri uma pequena estação meteorológica caseira, com a qual registei, durante alguns meses, as condições do estado do tempo. Infelizmente, alguns desses dados já se perderam, embora outros que fui enviando para o wunderground, ainda perdurem. Com o passar do tempo, o interesse foi esmorecendo até que, com a saída de casa dos meus pais, a estação meteorológica foi totalmente abandonada. O anemómetro e o pluviómetro, lá ficaram, sujeitos à intempérie, sem terem, no entanto, quem lhes recebesse os dados adquiridos com tanto esforço!

Na última semana, rica em instabilidade climática, decidi ir buscar aqueles desgraçados instrumentos, sacudir-lhes o pó de dois anos de esquecimento, e ligá-los aqui em casa.

Após alguma hesitação face à impossibilidade de colocar o anemómetro num local totalmente desimpedido, decidi-me a colocá-lo na varanda, mesmo sabendo que não vou receber leituras correctas em relação aos ventos de Oeste. Assim, com um pouco de bricolage, lá consegui pôr de pé este velho hobbie!

O  primeiro contratempo não tardou em chegar. Os anos de esquecimento pareciam ter deixado o pluviómetro intacto, mas o mesmo não poderia dizer do anemómetro, cujos valores não estavam a chegar à estação base. Damn!

Há na net, algumas histórias relativas à transmissão de valores errados pelo anemómetro desta estação (é uma LaCrosse WS-2305), mas isso era algo que já me tinha acontecido aquando da primeira instalação. Desta vez o caso era diferente. Nada de valores. Nill. O tempo (quer o horário quer o meteorológico), tinha feito das suas. Sem desanimar, porém, decidi abrir o anemómetro para ver se estava tudo bem no interior. Estaria algum cabo solto? Não – estava tudo no sítio. Havia no entanto alguma humidade. Agarrei então num secador de cabelo e tentei secar tudo, voltei a fechar e… Temos um valor! Foi meia vitória, pois é suposto ter dois: a direcção e a intensidade do vento. Só tenho a direcção…

Dando-me, para já, por contente, passei à fase seguinte – transmitir os dados da estação para o PC e daí para a net.

Agora vem uma parte (mais) geek, pelo que os não interessados, podem saltar estes parágrafos.

Ora, a estação trazia um software manhoso para windows, que nem me preocupei em procurar. Aqui só corre Linux. Alguma solução teria que haver. Haver, havia… O problema era a escolha. Sem surpresas, no entanto, a maioria dos programas que experimentei, eram logo abandonados à partida. Alguns, todos bonitinhos, funcionavam logo à primeira, com janelinhas bonitas e tudo, mas que raios, ocupavam demasiado o meu processador e eu não fazia tenções de ter um servidor dedicado a esta coisa! Os outros, poupavam tanto em recursos do sistema como em user friendliness.

Estava quase, quase a desistir, quando encontrei o wview. Funcionou à primeira e é poupadinho!

Segui, com um mínimo de alterações, as dicas do David Kabal. Só deixei o MySQL de lado pois, para já, não estou interessado e, obviamente, instalei versões mais recentes que as que ele refere no artigo.

Infelizmente, surgiu mais um contratempo. Era suposto o wview fazer automaticamente a transferência dos ficheiros criados (essencialmente html e png) para um servidor ftp, mas por mais voltas que dê, népias, não transfere nada e para dificultar um pouco as coisas, também não apresenta erro nenhum, pelo que se torna complicado descobrir os motivos. Uma pesquisa nos fórums, revela que há mais utilizadores com o mesmo problema mas sem soluções. Alguns resolveram o problema com uma re-instalaçao – comigo não resultou. Como há várias maneiras de esfolar um gato (é o que dizem!), resolvi o problema com relativa facilidade: limitei-me a criar um cronjob que faz o trabalho. Limpinho.

Depois de algumas marteladas no html – o aspecto default, deixa muito a desejar -, lá consegui publicar o MGMeteo (e, também, transmitir os dados para aqui). É certo que não haverá muitos interessados no tempo que faz na Marinha Grande, mas a verdade é que descobri nos últimos dias que há muito mais apanhados do clima do que eu supunha!

Dividi os dados da forma que me pareceu fazer mais sentido – actual, diário, semanal, mensal e anual. Inicialmente, surgiram bastantes falhas. De um momento para o outro, a estação perdia contacto com os sensores exteriores e o wview, não recebendo dados, utilizava os valores default, pelo que me surgiam temperaturas na ordem dos 80°C… O problema parece ter sido resolvido com uma pequena aproximação da base da estação  aos sensores – limitei-me a afastá-la o mais que consegui do PC, ganhando pouco mais que um metro…

Ainda não é um trabalho concluido. Por um lado, o sensor de velocidade do vento poderia dar valores muito interessantes (curiosamente, parece ter despertado algum tempo durante o vendaval de dia 31 de Janeiro!), pelo que preciso tentar descobrir o que se passa. Por outro lado, o termómetro parece apanhar algum sol durante o período das 10h00, o que se traduz numa subida repentina e vertiginosa de temperatura por volta dessa hora, falseando os resultados.

O mais certo, no entanto, é que após a publicação deste post, me esqueça que isto existe durante o próximo par de anos! :)


2
Dez 08

Consumo eficiente?

Passam agora dois anos sobre a nossa mudança para este apartamento. A altura ideal, portanto, para fazermos um balanço dos nossos consumos.
O nosso agregado familiar é composto por duas pessoas e o apartamento em questão é um T3. Quer por motivos ambientais quer económicos, temos tentado apostar numa utilização racional dos nossos recursos. Terá, o nosso esforço, sido suficiente?

Consumo de energia eléctrica

Indicador Unidade Resultado 2007 Resultado 2008 Valor de referência
Consumo médio mensal de energia kWh/mês 301,5 298,3 ~352,2

O cálculo do consumo médio mensal de energia foi efectuado com recurso aos valores presentes nas facturas, referentes às leituras reais do contador. Após a soma anual destes valores, o valor médio mensal foi calculado dividindo o total obtido por doze meses.
O valor obtido representa, assim, a média de energia eléctrica consumida mensalmente em cada um dos anos analisados.
Embora se refira, como valor de referência, o resultado obtido através do site da EDP, julgo não se dever, porém, encará-lo como meta a atingir, uma vez que faltam a este simulador algumas características que o tornem minimamente fiável (como seja, por exemplo, a composição do agregado familiar que, naturalmente, se deveria reflectir no resultado obtido).

A diferença de resultados entre os dois anos em análise, embora não tão significativa como gostaríamos, vem de encontro ao esforço que temos vindo a efectuar no sentido de reduzir o nosso consumo energético.
Nesse sentido, optámos, desde logo, pela aquisição de electrodomésticos cuja classe energética fosse de categoria A.
Infelizmente, por desconhecimento da nossa parte, a generalidade dos nossos candeeiros utilizam lâmpadas de halogéneo, cuja substituição por lâmpadas economizadoras se tem vido a revelar difícil, quer por não estarem disponíveis no mercado em todos os formatos que necessitamos, quer por não ser fácil encontrar as poucas que existem.
Apesar de procurarmos evitar deixar qualquer equipamento em stand by, este será, certamente, um ponto em que ainda podemos melhorar. Temos procurado não deixar os carregadores ligados à corrente após carregar os telemóveis e sempre que possível fazemos o mesmo para qualquer equipamento que não precise manter-se ligado. O equipamento informático, no entanto, fica habitualmente ligado sem necessidade e será um ponto a corrigir se queremos atingir um valor de consumo ideal.

Um indicador aqui não analisado, o valor médio mensal da factura de energia, sofreu uma forte diminuição com a adopção da tarifa bi-horária da EDP e a adopção das horas de vazio para utilização de equipamento eléctrico mais exigente do ponto de vista do consumo.

Consumo de água

Indicador Unidade Resultado 2007 Resultado 2008 Valor de referência
Consumo médio mensal de água m3/mês 9,1 9,8 ~9,0

Recorrendo à análise das facturas do consumo de água, obteve-se o consumo médio mensal de água. Através da soma das leituras reais dos vários meses e da sequente divisão por doze meses, obtemos este valor para cada um dos anos analisados.
O valor utilizado como referência, é apresentado no site da EPAL apenas em formato gráfico, daí tratar-se de uma aproximação, embora possa ser encarado como uma meta a atingir.

Tanto o aumento que se verificou de 2007 para 2008 como a meta que deveríamos procurar atingir, constituem uma surpresa, pois julgávamos ter vindo a reduzir o nosso consumo para valores ideais, o que não se verifica.
Uma vez que reduzimos a um a número desprezável os banhos de imersão e temos tentado, sempre que possível, evitar lavar a louça na máquina, optando pela lavagem à mão, a subida do consumo, constitui, em certa medida, um factor de frustração.
Haverá, obviamente, espaço para melhorar, seja por redução do fluxo das torneiras e chuveiros quer pela redução de volume das descargas do autoclismo, mas é-nos difícil compreender o acréscimo neste último ano, pois não sabemos onde teremos consumido mais água.

Apesar da nossa preocupação em manter um nível de consumo reduzido, constatamos, através deste exercício, que os nossos esforços não se têm traduzido numa diminuição tão drástica como pretendíamos.
Gostaríamos de encontrar, a nível das instituições, a divulgação de valores de referência que pudessem ser encarados como metas a atingir pois é a única forma de sabermos se o estilo de vida que levamos é, efectivamente, eficiente.
Tentaremos, ainda, olhar para os nossos consumos de uma forma mais racional, analisando o consumo efectuado e não apenas o valor a pagar que, nem sempre parece traduzir a realidade.
Este exercício revela a necessidade de um acompanhamento constante dos valores mensais. Não basta encarar estes indicadores de forma meramente teórica: é necessário definir metas e procurar, mês após mês, chegar cada vez mais perto dos nossos objectivos.


23
Nov 08

Qualidade do ar: uma utopia ou talvez não

A atmosfera que actualmente envolve o nosso planeta é, simultaneamente, um produto da actividade biológica, e um elemento indispensável para a sobrevivência da vida na Terra tal como a conhecemos. Deste modo, talvez seja algo redutor encará-la como a mera soma dos diversos gases que a constituem. Trata-se de um sistema complexo, cujas características físicas e constantes interacções com as restantes esferas planetárias, resultam numa entidade em mutação e auto-regulação permanente.

Apesar de não conhecermos, em detalhe, a composição da atmosfera primordial do nosso planeta, sabemos um pormenor essencial: o ar que hoje respiramos, nem sempre existiu – é, antes, o resultado de uma evolução para a qual contribuiram diversos factores que, pelo que observámos até à data, não se repetiram em qualquer outro ponto do Universo.

A primeira atmosfera, provavelmente constituída por gases demasiado leves (hidrogénio e hélio), não terá resistido muito tempo, dispersando-se para o espaço exterior. A intensa actividade vulcânica no planeta ainda em consolidação, terá libertado novos gases que deram origem a uma nova atmosfera, ainda muito diferente da que conhecemos hoje.

Com uma elevada concentração de vapor de água e de dióxido de carbono, esta atmosfera de segunda geração tinha o potencial necessário para transformar o planeta. Finalmente, quando esta imensa quantidade de vapor de água se condensou dando origem aos oceanos, faltava apenas um pequeno pormenor para que a atmosfera voltasse a sofrer uma transformação radical: o aparecimento da vida.

Algumas das primeiras bactérias terão tido um papel fundamental neste processo de transformação, realizando a fotossíntese e, consequentemente, iniciando a oxigenação da atmosfera. A evolução das primitivas formas de vida e o aparecimento de organismos mais eficientes foi, gradualmente, acelerando o processo, reduzindo progressivamente a quantidade de dióxido de carbono e aumentando a percentagem de oxigénio no ar.

Assim surgiu a nossa atmosfera, uma mistura de gases que, por não ter existido sempre, não devemos tomar como garantida. É esta atmosfera que nos permite sobreviver e dá ao nosso planeta o tom de azul pelo qual o reconhecemos. Cabe-nos estimá-la.

Naturalmente, este processo de mudança não estará terminado: os vulcões continuam a expelir gases e a biosfera constantemente consome e liberta outros gases. Parece, no entanto, ter-se atingido um certo equilíbrio na composição atmosférica, que se mantem praticamente inalterada desde há centenas de milhões de anos. A actividade vulcânica actual é bastante reduzida quando comparada com a do jovem planeta Terra. Por outro lado, nenhum organismo vivo teria a capacidade de introduzir alterações profundas na atmosfera. Excepto o Homo sapiens.

Desde cedo, especialmente após o controlo do fogo, a nossa espécie iniciou um percurso de contaminação do ar que passou, gradualmente, de um problema local (prontamente resolvido com uma mudança de acampamento), para um problema à escala continental (chuvas ácidas e radioactividade – a que é impossível virar as costas).

Foi um caminho longo, repleto de erros, que percorremos com alguma inconsciência, desde os tempos mais remotos até aos nossos dias quando, finalmente, começamos a tomar consciência das consequências dos nossos actos. É fácil cair na tentação de criticar a demora em tomar medidas, mas esta tomada de consciência e a plena compreensão dos erros cometidos é um primeiro passo necessário para uma mudança de mentalidades e de atitudes.

No fundo, não parecemos ser muito diferentes dos nossos antepassados. Procuramos constantemente o caminho mais fácil. Fosse-nos possível, simplesmente, mudar de planeta quando o ar da Terra se tornasse irrespirável, e julgo que o faríamos. Na impossibilidade de o fazer, procuramos remediar os nossos erros e não, prontamente, evitá-los.

Temos, agora, plena consciência de que as nossas indústrias, os nossos automóveis e muitos dos produtos que utilizamos diariamente sem pensar duas vezes, afectam, de algum modo, o ar que respiramos.

Os compostos de enxofre, principalmente o dióxido de enxofre (SO2), são emitidos em qualquer actividade que implemente a combustão de produtos contendo enxofre, como sejam o petróleo e o carvão. Uma vez que o dióxido de enxofre se converte facilmente em ácido sulfuroso (H2SO3) ou em ácido sulfúrico (H2SO4), é o principal responsável pelas chuvas ácidas.

Os diversos compostos de azoto (NOx) têm origem em combustões a altas temperaturas, como as frequentemente utilizadas industrialmente, ou nos motores de combustão interna dos veículos automóveis.

Os compostos de carbono lançados para a atmosfera, são gases com um importante efeito de estufa, contribuindo para o aquecimento do planeta.
As concentrações de dióxido de carbono (CO2), composto naturalmente presente na composição atmosférica, têm vindo a crescer continuamente ao longo do último século devido à nossa incessante dependência de combustíveis fósseis.
O monóxido de carbono (CO), produto da combustão incompleta de compostos orgânicos é um poluente de elevada toxicidade para os animais que utilizam a hemoglobina para transporte do oxigénio.
Outros compostos orgânicos voláteis são também responsáveis pelo efeito de estufa. O metano (CH4) será, provavelmente, o mais preocupante pois o seu efeito de estufa é bastante superior ao do dióxido de carbono.

Outras partículas, de diversas composições e dimensões, são lançadas para a atmosfera, ali se mantendo em suspensão. Com origem em fumos e poeiras emitidos pelo tráfego, pelo sector industrial, pela construção civil ou pela agricultura, muitas destas partículas podem ser inaladas, dando origem a problemas de saúde cuja gravidade dependerá da sua composição.

Os compostos halogenados, de que os CFCs são um exemplo clássico, são industrialmente utilizados como refrigerantes, gases propulsores ou solventes. Após a tomada de consciência da responsabilidade dos clorofluorcarbonetos na redução da camada de ozono, os governos legislaram no sentido de reduzir progressivamente estas emissões. O longo tempo de vida destes produtos, no entanto, resulta num efeito prolongado no tempo, muito para além da data da sua emissão para a atmosfera.

Obviamente, o conhecimento dos efeitos nocivos que estes produtos exercem sobre o ambiente que nos rodeia, afectando tanto o Homem como os restantes seres vivos com quem compartilhamos o planeta, tem levado os diversos governos mundiais a tomar medidas no sentido de reduzir este tipo de emissões. O estabelecimento de valores limite para os diversos tipos de poluentes, a obrigatoriedade de monitorização da qualidade do ar e a disponibilização destes valores ao público foi um importante passo no sentido de nos garantir um ar saudável. Será suficiente?

Os graves efeitos e o longo tempo de vida de muitos destes poluentes fazem-me crer que a legislação ainda é insuficiente. Caso o rumo se mantenha, a redução das emissões apenas adiará o inevitável: a transformação gradual da composição atmosférica e a consequente destabilização bio-físico-climática que isso acarreta.

As alterações à composição atmosférica, por insignificantes que nos pareçam, possivelmente, provocarão sempre resultados inesperados. Sabemos, por exemplo, que em altitudes elevadas, onde a menor pressão atmosférica reduz a concentração de oxigénio disponível, se traduz na ocorrência de diversos sintomas cuja única cura eficaz se resume ao regresso a uma atmosfera saudável. Documentos espanhóis do século XVI, relatam a incapacidade reprodutiva dos colonos europeus nas aldeias dos Andes.

Se enquanto organismos, a poluição atmosférica nos pode provocar diversos tipos de doenças mais ou menos graves, enquanto espécie, o Homo sapiens evoluiu e adaptou-se a esta atmosfera e provavelmente não conseguirá sobreviver noutra. O mesmo acontece com inúmeras outras espécies, cuja sensibilidade a alterações ambientais poderá ser ainda mais drástica que a nossa.

Esgotando todas as possibilidades de mudar de acampamento, fechar os olhos e negar as consequências dos nossos actos, acredito que iremos, finalmente, agir! A procura de energias alternativas, não poluentes é uma realidade que começa a dar os primeiros passos, ainda hesitantes, pois parecemos encará-las ainda como curiosidades e não como necessidades. Dia a dia, porém, confrontados com a gravidade das nossas acções, iremos repensar o nosso modo de vida.

A poluição atmosférica causa a morte de pelo 10 mil pessoas, todos os anos, na região de Hong Kong, Macau e sul do continente chinês. São estes os resultados de um estudo divulgado recentemente em Hong Kong e que aponta como principal culpado o agravamento regional da poluição atmosférica. Cerca de 440 mil camas de hospital e 11 milhões de consultas médicas é o balanço do estudo da consultora Civic Exchange. (in Associação Portuguesa de Engenharia do Ambiente)

As características únicas da atmosfera fazem-nos compreender que nenhum problema ambiental é verdadeiramente local. Temos apenas este planeta e o ar que respiramos é partilhado com todos os seres vivos. Não há fronteiras na atmosfera pelo que é urgente exigir de todos e de cada um de nós, o respeito pelo nosso ar como um bem comum. Como meros inquilinos, chegou a hora de nos comportarmos civilizadamente.

Os fogos naturais, as tempestades e os vulcões continuarão a estar fora do nosso controlo e contribuirão, ocasionalmente, para a degradação da qualidade do ar, mas seria óptimo podermos dizer aos próximos inquilinos que lhes estamos a entregar a atmosfera, tal como a encontrámos quando aqui chegámos. Se possível, ainda em melhor estado. Sairíamos de cena com a consciência bem mais leve e um ar bem mais puro.