Leituras


24
Jan 10

O Nome do Vento

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Quando pego num livro de fantasia de um novo autor, não consigo deixar de sentir uma ligeira inquietação. Nos últimos anos, à medida que este género literário vai ganhando adeptos, as obras medíocres (algumas delas conseguindo atingir o patamar de best sellers), têm-se sucedido a uma velocidade vertiginosa.

A dura realidade é muito simples: depois do pioneirismo dos primeiros autores deste género, muito poucos têm trazido algo de novo. Sucedem-se as cópias e a reutilização de ideias mil vezes descritas. Assim, ao ler as primeiras linhas de um autor desconhecido, apenas me ocorre uma pergunta: quem irá este copiar?

As generosas críticas ao Nome do Vento fizeram-me acreditar que talvez, (talvez!), Patrick Rothfuss tivesse conseguido escrever algo diferente. Será?

A resposta não é simples nem linear.

Uma das críticas que me fez acreditar que A Crónica do Regicida (nome desta trilogia) merecia um olhar mais atento, foi a de Ursula K. Le Guin (umas das verdadeiras Autoras de literatura fantástica). Escreveu ela: “It is a rare and great pleasure to come on somebody writing the way (Patrick Rothfuss does), not only with the kind of accuracy of language that seems to me absolutely essential to fantasy-making, but with real music in the words as well…. Oh, joy!”

Por outro lado, algumas críticas com pretensão de positivas, acabam por ter o efeito contrário: “Os fãs de Harry Potter ansiando por uma nova série excitante não precisarão de procurar além de O Nome do Vento”, escreveu a Amazon. Palavras que, lamentavelmente, podem ser encontradas na capa da versão portuguesa deste livro.

Dando-lhe o benefício da dúvida, peguei no imenso livro de 966 páginas e dispus-me a lê-lo sem preconceitos.

Não foi à toa que falei de Ursula Le Guin e do Harry Potter. Efectivamente, a comparação com ambos é inevitável – essencialmente porque o Harry Potter tem muito de O Feiticeiro de Terramar de Ursula Le Guin. E, à semelhança de ambos, também o herói de O Nome do Vento é um jovem que sonha ser feiticeiro e ingressa numa escola. À semelhança de Terramar, também a magia de Rothfuss envolve os verdadeiros nomes das coisas. À semelhança do Harry Potter, também o herói desta nova história é órfão. As semelhanças, porém acabam aí.

O Nome do Vento não é literatura infanto-juvenil. Toda esta história se desenrola num ambiente muito mais tenebroso, violento e, por vezes, macabro. Apesar do protagonista ser jovem, as situações para que vai sendo, sucessivamente, arrastado, parecem-me demasiado intensas para um público juvenil.

Esta realidade, de certa forma, dá um novo contorno a toda a trama. Sem receio de invocar imagens de sangue ou sugestões de prostituição, Rothfuss aposta, definitivamente, num público mais exigente, afastando-se radicalmente das suspirantes adolescentes apreciadoras do jovem feiticeiro de J. K. Rowling.

A história é contada a dois tempos, com uma narrativa dentro de outra (e, por vezes, ainda com uma terceira, dentro da segunda!). Na prática, isto significa que temos algumas respostas antes de conhecermos a perguntas ou, dito de outra forma, conhecemos o final sem sabermos como fomos lá parar. Poderia tornar-se confuso, mas o autor consegue tornar clara toda a acção.

No final do primeiro livro da trilogia, a sensação que fica é comum a tantas outras obras separadas em diversos volumes: sabe a pouco. Aqui, no entanto, essa sensação é reforçada pelo nosso conhecimento da história contada a dois tempos.

Sem me querer atrever a ir demasiado longe, a leitura deste primeiro volume, dá-nos a sensação de termos lido o prólogo de uma história que ainda nem começou. São poucos os autores capazes de fazer isto.

Uma nota final para o inevitável filme que surgirá, mais ano menos ano: não será uma conversão fácil e, tenho até algum receio do resultado. Os livros do Harry Potter têm uma estrutura linear, totalmente cinematográfica e um público alvo muito específico. A vida de Kvothe (é esse o seu nome), por outro lado, é contada de trás para a frente e de frente para trás, e envolve a construção de um Universo tão rico como complexo. É possível fazê-lo, obviamente! A Bússola Dourada é um exemplo de uma brilhante adaptação. Infelizmente, há também alguns maus exemplos, entre os quais está o infeliz Feiticeiro de Terramar.


21
Mar 09

Não digas nada!

Não digas nada!
Nem mesmo a verdade
Há tanta suavidade em nada se dizer
E tudo se entender -
Tudo metade
De sentir e de ver…
Não digas nada
Deixa esquecer

Talvez que amanhã
Em outra paisagem
Digas que foi vã
Toda essa viagem
Até onde quis
Ser quem me agrada…
Mas ali fui feliz
Não digas nada.

Fernando Pessoa

…porque é Dia Mundial da Poesia.


25
Nov 08

oo que?

Obrigadinho, mas por mim, já chega. Se é preciso passar por isto para conseguir umas borlas, acho que prefiro pagar.


21
Out 08

Eragon

Este livrinho já estava na prateleira há algum tempo, mas só agora, com a chegada das férias, tive paciência para lhe deitar as mãos…

Como apreciador e leitor mais ou menos compulsivo deste género literário, há certas coisas que espero encontrar ao agarrar na obra de um novo autor. Lamentavelmente, Paolini não esteve à altura.

Vamos por partes.

A história é interessante e consegue agarrar o leitor. Tanto assim é que, já agarrei no segundo volume e comprei o terceiro. Aí, consegue o autor ir de encontro às expectativas. Nada mau, para um adolescente.

Quando agarro num livro de fantasia, porém, espero mais que isso. Espero ser surpreendido por mundos tão diferentes, habitados por seres tão estranhos, que seja impossível reconhecê-los de outros lados.

Não é tarefa fácil, eu sei! Raros são os autores que conseguem fugir dos estereótipos dos elfos, anões, dragões, orcs e trolls! No fundo, nem esperava que Paolini o fizesse. Escapar dessa fantasia clássica não é tarefa fácil e poucos são os autores que se atrevem a tanto.

Então, porque me queixo?

Paolini foi longe demais na sua “reutilização” de mundos fantásticos. Qualquer leitor atento poderá apontar as semelhanças entre a sua obra e outras, escritas há dezenas de anos. E, no que toca à fantasia, as ideias são geralmente tão rebuscadas que é praticamente impossível tratar-se de “coincidência”.

Reparem.

Muitos magos de grande poder levaram toda a vida para descobrir o verdadeiro nome de uma única coisa… um único nome perdido ou escondido. E mesmo assim as listas não estão acabadas. [...] a magia, a verdadeira magia, só é obra daqueles que falam a língua hardic de Terramar, ou a velha fala da qual ela nasceu.

É essa linguagem que os dragões falam, e a linguagem que Segoy falou quando fez as ilhas do mundo, e a linguagem das nossas ordens e canções, feitiços e encantamentos e invocações. [...]

Ninguém conhece o verdadeiro nome de um homem, menos ele e quem lho deu. Ele pode decidir a seu tempo dizê-lo a seu irmão, ou a sua mulher, ou ao seu amigo [...] Na frente das outras pessoas, eles, como toda a gente, tratá-lo-ão pelo seu nome de uso, a sua alcunha [...] Quem conhece o nome de um homem tem a vida desse homem nas suas mãos. [...]

Ainda que o uso da velha fala obrigue um homem a dizer a verdade, isso não acontece com os dragões. É a sua linguagem e eles podem mentir nela, torcendo as palavras verdadeiras para falsos fins [...]

in “O Feiticeiro de Terramar”, Ursula Le Guin, 1968

Agora, se desejas empregar o poder, deves pronunciar a palavra ou a expressão da língua antiga que descreve a tua intenção. [...] Além disso, quando se está a falar essa língua, é impossível praticar o engano. [...]

- E os Elfos falam esta linguagem?
- Sim.
- Então nunca mentem.
- Não é bem assim – admitiu Brom. – Eles insistem que não mentem, e de certa forma isso é verdade, mas aperfeiçoaram a are de dizer uma coisa e significar outra. [...]

Aqueles que falam a língua têm dois nomes. O primeiro é para uso quotidiano e tem pouca autoridade. Mas o segundo é o seu nome verdadeiro e é partilhado apenas com algumas pessoas de confiança. [...]

in “Eragon”, Christopher Paolini, 2003

Para não alongar demasiado este post, aponto apenas outra grande semelhança – a relação cavaleiro/dragão que  encontramos no Eragon e nas novelas de Anne McCaffrey, “Dragonriders of Pern”, também de 1968.

Parece-me que vai um pouco além de “mera inspiração”…

Apesar de tudo, não se fiem nas minhas palavras: leiam! :)

Ah, também vi o filme, mas nem vale a pena comentar.


18
Jul 08

Stardust vs Stardust

versus

É mais que sabido que as adaptações cinematográficas ficam, geralmente, àquem das obras literárias que lhes servem de inspiração. Tratam-se de artes diferentes, dirigidas a diferentes públicos, e como tal, não deveremos estranhar os resultados destas adaptações.

Comecei a ler Stardust ainda antes da versão de Hollywood estrear na tela, mas acabei por ver o filme antes de terminar o livro. Não me surpreenderam a supressão de personagens, o desenvolvimento de outras ou os pontapés na história de modo a torná-a mais simples. É isso que os frequentadores do cinema esperam encontrar – um entretenimento de hora e meia que depois possam esquecer.

Uma alteração, porém, foi de tal modo radical e é tão representativa das diferenças entre o cinema e a obra literária que não poderia deixar de a assinalar.

Trata-se do final da história. O grande clímax (ou a falta dele).

Seguem-se spoilers. Continue a ler por sua conta e risco.

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