versus 
É mais que sabido que as adaptações cinematográficas ficam, geralmente, àquem das obras literárias que lhes servem de inspiração. Tratam-se de artes diferentes, dirigidas a diferentes públicos, e como tal, não deveremos estranhar os resultados destas adaptações.
Comecei a ler Stardust ainda antes da versão de Hollywood estrear na tela, mas acabei por ver o filme antes de terminar o livro. Não me surpreenderam a supressão de personagens, o desenvolvimento de outras ou os pontapés na história de modo a torná-a mais simples. É isso que os frequentadores do cinema esperam encontrar - um entretenimento de hora e meia que depois possam esquecer.
Uma alteração, porém, foi de tal modo radical e é tão representativa das diferenças entre o cinema e a obra literária que não poderia deixar de a assinalar.
Trata-se do final da história. O grande clímax (ou a falta dele).
Seguem-se spoilers. Continue a ler por sua conta e risco.
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A película do norte-americano Chris Weisz, a partir do livro do britânico Philip Pullman, caiu em desgraça e a crítica do Vaticano é feroz.
Para a Igreja, o filme protagonizado por Nicole Kidman e Daniel Craig é uma “saga ‘fantasy’ gnóstica com molho ‘soixante-huitard [alusão ao movimento de rebelião estudantil em França, em 1968], além de “anti-Natal”, escreve o jornal oficial do Vaticano.
in Correio da Manhã
É caso para dizer, eu bem vos avisei.
Não se deixem enganar. O que incomoda o Vaticano, não é a fantasia! Queixaram-se por acaso do Senhor dos Anéis ou do Harry Potter? Nem, tão pouco, os preocupa que naquele Universo surja uma Igreja prepotente e ditatorial. Ainda que se reveja no Magisterium, a Igreja Católica Apostólica Romana já deve estar habituada aos filmes que lhes pisam os calos da Idade Média e da Inquisição.
Naaa… O problema é que, alguém no Vaticano arranjou tempo para ler a continuação da história.
Para mais detalhes, que podem incluir spoilers, ver View on Religion, uma análise do ponto de vista religioso na obra de Pullman.
Pena é que, como eu suspeitava, a narrativa seja relatada de forma tão acelerada, que na versão cinematográfica, a esmagadora maioria dos pormenores fique por contar…
Estas adaptações deixam-me sempre de pé atrás. Como fã incondicional da obra de Philip Pullman, não deixarei, certamente, de ir ver o filme, mas sei que alguma desilusão será inevitável. Por muitos efeitos especiais que lhe encaixem, pergunto-me como conseguirão a profundidade suficiente para as personagens. O Lorde Asriel e a Srª Coulter, em particular, personagens chave nesta história, são de uma complexidade tal, que por muitos bons que sejam os actores (Nicole Kidman e Daniel Craig), temo que não representem mais que um papel acessório. Veremos.
Estreia na próxima quinta-feira.