Estava eu a acabar de dividir os registos, quando o J., nas cobranças a meu lado, se vira para mim.
- Estás a ver… Era tão grande que rompeu o envelope.
Olho para ele. Tem um envelope na mão, descolado, semi-aberto, por onde espreita um generoso dildo. Em poucos segundos, a informação espalha-se pelos colegas mais próximos, ainda que ele tenha tentado tapar a embalagem o melhor possível. Algumas piadas são ditas sobre o assunto e sobre a destinatária da cobrança (vinte e poucos euros). Afinal, somos apenas humanos.
Não é a primeira vez que situações destas acontecem. Este tipo de artigos parece ter uma vontade muito própria para escapar das suas embalagens e gritarem “Aqui estou eu!”.
Em tempos, levava um registo que aparentava ser uma caixa, para um conhecido doutor da região. A caixa vinha envolvida numa folha de papel pardo. Para meu desagrado, quando cheguei à porta do homem, o papel tinha-se rasgado e o conteúdo estava à vista. Tratavam-se de cassetes vídeo (foi no tempo pré-dvd). Nada de anormal, não fossem as capas das cassetes serem ilustradas por pessoas despidas, em actos bastante íntimos. Por sinal as pessoas eram todas homens.
Ora, para evitar o constrangimento do destinatário, e também o meu, optei por não tocar à campainha e deixar um aviso para ele levantar a encomenda na estação. Entretanto teria tempo para colocar alguma fita-cola em locais estratégicos, evitando assim novos embaraços ao balcão. Contente da vida com a resolução tomada, segui o meu caminho, quando minutos depois me aparece o homem, com o aviso na mão e um sorriso nos lábios. “Não ouvi a campainha”, diz-me.
Engolindo em seco, entrego-lhe a embalagem rasgada em troca do aviso. Embora sem qualquer outra troca de palavras, eu sei que ele sabe que eu sei.
Não pretendo com este texto desincentivar alguém de fazer compras nas sex shops online. Pelo contrário, acho bem que o façam e se divirtam à grande. O alerta serve essencialmente para quem envia os produtos.
Pelamordedeus, acondicionem-os devidamente!